Quebra de paradigmas estratégicos provocados pelo Covid-19 no setor de energia

O novo coronavírus (Covid-19) não está apenas mudando os hábitos das pessoas e do ecossistema empresarial, exigindo a intervenção forte dos governos para salvar vidas e garantir a estabilidade econômica. O impacto no setor de energia foi imediato com a decretação de medidas de isolamento horizontal pelos governos. Segundo dados da EPE – Empresa de Pesquisas Energética – o consumo deve cair 0,9% em 2020, contra uma previsão de crescimento de 4,2%. Ou seja, a carga de energia média (MWmédio) previsto para 2020 de 70.825 foi revista para 67.249, inferior a registrada em 2019 de 67.835.

Este recuo está influenciando as projeções futuras de carga de energia até 2024  (Empresa de Pesquisa Energética, 2020). Como a energia é um dos principais custos de insumo da indústria no país, a gestão energética nas empresas deve considerar vários cenários econômicos após o controle da pandemia. O novo planejamento estratégico das empresas, certamente, quebrará vários paradigmas e dogmas atuais.

Com a expectativa de crescimento do PIB de 2,32% para 2020, muitas empresas adquiriram uma quantidade de energia a mais, projetando o crescimento do seu setor (COSTA, 2020). Entretanto, uma revisão do Relatório de Mercado Focus, em 6/4/2020, apontou para uma queda de 1,18% do PIB este ano e uma projeção de alta de 2,50% para 2021 (RODRIGUES, 2020). A questão agora para as empresas é o que fazer com a energia contratada a mais?

Como os contratos do Mercado Livre de energia são negociados diretamente com os geradores e comercializadoras, cabe uma revisão dos contratos para garantir a saúde financeira, tanto dos clientes, como das empresas do setor de energia. Um dos recursos extremos, ou apenas como argumento jurídico, é declarar o momento atual da pandemia como “evento de força maior” para forçar a revisão dos contratos.

Durante a pandemia e das incertezas do mercado, os preços de energia do mercado reduziram. Em março de 2020 os contratos negociados para maio eram negociados por R$96 por megawatt-hora, contra R$130 dois dias antes. O contrato para junho caiu a R$145, contra R$180 por megawatt-hora. Os contratos para 2021, como menor liquidez, caíram de R$195 para R$190 por megawatt-hora.

Em um cenário de queda dos preços de energia, empresas de alto consumo de produtos não perecíveis devem aumentar sua produção para aumentar os estoques, reduzindo desta forma o custo de produção, e antes de uma inevitável redução de pessoal. Esta estratégia deve avaliar o custo do estoque no período.

Em uma situação mais confortável estão os autoprodutores de energia, que por questões de regulamentação do setor, entregam o excesso de energia para a concessionária de distribuição e podem utilizar os créditos em períodos futuros. Neste caso, a redução das atividades nas operações aumenta a quantidade de energia entregue para rede pública, minimizando os custos futuros. Uma boa alternativa para quem investiu em geração distribuída.

Para que ainda opera no mercado cativo das concessionárias de energia, a diminuição das atividades impacta na redução no consumo de energia, embora não reduza o valor da demanda contratada. Entretanto, a previsão é de bandeira verde para as tarifas de energia, uma vez que o consumo caiu e não será necessário acionar as termoelétricas para atender as demandas em períodos normais.

Para definições estratégias empresariais, considerando a dinâmica de preços de energia, é fundamental que a gestão energética na empresa use novas ferramentas de medição e controle. O uso de tecnologias como IoT, Big Data e Inteligência Artificial é capaz de detectar oportunidades para novas configurações e rotinas de uso de motores, caldeiras, sistemas de refrigeração e outros equipamentos elétricos.

Com dispositivos remotos cada vez mais baratos e seguros, é possível medir o consumo e outros parâmetros elétricos de circuitos e equipamentos críticos no chão de fábrica. Os dados coletados são armazenados em grandes bancos de dados, conhecidos como Big Data, e utilizando técnicas avançadas de análise de dados, usando algoritmos de inteligência artificial, é possível realizar análises preditivas e simulações de consumo e qualidade da energia em diferentes cenários de produção.

A boa notícia é que os softwares para a coleta de dados, armazenamento e análise de dados são gratuitos, ficando os custos concentrados no hardware e recursos humanos.

Concluindo, em cenários de incerteza somente empresas que possuem informações confiáveis conseguem definir a melhor estratégia de negócios, minimizando os impactos das crises e superando concorrentes que não possuem uma cultura de tomada de decisão orientada a dados.

Referências

COSTA, L. (13 de 03 de 2020). Coronavírus reduz projeções de carga de energia do Brasil em 2020. Fonte: UOL Economia: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/03/13/coronavirus-reduz-projecoes-de-carga-de-energia-do-brasil-em-2020.htm

Empresa de Pesquisa Energética. (27 de 03 de 2020). Impactado pela Covid-19, consumo de energia deve cair 0,9% em 2020. Fonte: EPE: http://www.epe.gov.br/pt/imprensa/noticias/impactado-pela-covid-19-consumo-de-energia-deve-cair-0-9-em-2020

RODRIGUES, E. (06 de 04 de 2020). Projeção do PIB de 2020 passa de -0,48% para -1,18%, aponta Focus. Fonte: BOL Notícias: https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/04/06/projecao-do-pib-de-2020-passa-de–048-para–118-aponta-focus.htm

 

Este artigo faz parte da parceria entre a Infra Solar e o Fórum de Eficiência Energética.

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